3.9.04

MICHEL FOUCAULT: PERSPECTIVAS - SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE 21 A 24 DE SETEMBRO

VINTE ANOS SEM FOUCAULT

O século passado pode, em certa medida, ser considerado como um período durante o qual se desvaneceram muitas das esperanças e certezas promissoras trazidas pela modernidade ocidental no que diz respeito a uma superação de vários problemas vivenciados pelo homem, como por exemplo a crueldade da fome ou a violência das guerras. Em realidade, o otimismo ingênuo que tanto marcou o século XIX em razão do grande progresso material propiciado pela indústria e por diversas descobertas científicas foi sendo, gradativamente, colocado em suspensão (e sob suspeição) devido às evidências de que seus benefícios não eram, e não seriam, compartilhados por todos e, sobretudo, pela comprovação de que eles traziam consigo novos horrores e restauravam antigas barbáries.

Claro está que tal mudança de percepção não atingiu a todos os homens e mulheres, nem tampouco deu lugar obrigatoriamente a um sentimento fatalista de pessimismo generalizado. Sem qualquer pretensão de um diagnóstico mais amplo, o que importa assinalar aqui é a emergência de um conjunto de atitudes mais críticas em relação à modernidade ocidental e suas criações, atitudes estas manifestadas seja em variadas modalidades do pensamento, seja no que tange às diferentes formas de expressão estética, e que encontram muitas de suas raízes já no século XIX. Assim, tem-se como que um deslocamento onde o foco não está em saber se a humanidade (pouco importando o que esta palavra quer dizer) melhorou ou piorou, mas sim em reconhecer que não era obrigatório ter percorrido certos caminhos, em admitir que eles não tornaram mais próxima nenhuma redenção (como também qualquer perdição), e em compreender que alternativas podem ser abertas na contemporaneidade.

Muitos foram os homens e as mulheres que, mediante a agudez de seu raciocínio ou a sensibilidade de sua arte, contribuíram para este deslocamento e, dentre eles, figura Michel Foucault, pensador francês nascido em 1926 e falecido em 1984. Ao longo de sua vida, em constante diálogo com distintos campos de conhecimento como o Direito Penal, a História ou a Psicologia (ver, entre outros, trabalhos como Vigiar e punir: nascimento da prisão, ou os três volumes da História da sexualidade), e através de um permanente contato com a produção estética (como os contos de Jorge Luis Borges, ou a tela As meninas, de Velásquez, que amparam as reflexões de seu livro As palavras e as coisas), Michel Foucault forneceu uma instigante contribuição para que a modernidade ocidental fosse encarada enquanto uma criação histórica problemática que merecia ser analisada para além das imagens (de liberdade, de progresso, de civilização) que ela projetou acerca de si mesma.

Neste sentido, uma das ocasiões mais propícias para avaliar o impacto e os desdobramentos da obra deste autor remete para 2004, quando transcorrerão vinte anos de sua morte. E é exatamente por este motivo que um grupo de pesquisadores(as) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) e da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), e de artistas de variados campos de expressão, tomou a iniciativa de organizar um evento em Florianópolis, entre 21 e 24 de setembro de 2004, intitulado Michel Foucault: Perspectivas para, mediante a apresentação de trabalhos intelectuais, exposições artísticas e apresentações culturais, pôr em evidência e submeter à apreciação os elementos da obra do referido autor que seguem estimulando uma abordagem crítica de nossa própria atualidade.